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sexta-feira, 6 de junho de 2025

Dom Casmurro


O livro Dom Casmurro narra a história de um casal apaixonado cuja relação é abalada por uma possível traição. O marido, profundamente afetado, acaba se afastando da esposa e rejeitando o filho.

Trata-se das memórias do marido, Bentinho, escritas décadas após os acontecimentos, portanto a narrativa dependeu da sua memória e visão, pois relatou tudo sob sua própria perspectiva.
Bentinho relata impressões que, para sua infelicidade, sugerem que seu filho possa ser fruto de uma traição de Capitu com seu melhor amigo, Escobar, como a semelhança física entre ambos e um possível encontro durante sua ida ao teatro.

Além disso, Bentinho descreve a personalidade de Capitu: "olhos de cigana oblíqua e dissimulada", podendo indicar uma pessoa misteriosa, imprevisível, sedutora.
Sua própria personalidade transparece no texto: solitário, frágil, sem amigos.
Apesar das diferenças, estavam sempre juntos e se apaixonaram quando crianças.

Entre todos os indícios narrados, o que mais o perturba é a crescente semelhança física entre Ezequiel e Escobar. Bentinho menciona repetidas vezes como o menino lembra fisicamente seu melhor amigo, ainda que outras personagens não confirmem essa percepção. Esse detalhe se torna obsessivo em sua mente, funcionando como uma “prova íntima”, sem jamais ser confirmado. Ainda assim, essa impressão o persegue como um eco do que ele teme, mais do que ele sabe, e ajuda a alimentar a espiral de suspeita.

Com o passar dos anos, a situação torna-se insuportavelmente real para ele.  Capitu e Ezequiel mudam-se para a Europa, enquanto Bentinho se fecha na solidão.
Apesar das narrações, Bentinho nunca comprova a traição, mantendo a ambiguidade. Cada leitor interpreta os fatos à sua maneira.

            Mas qual seria o objetivo dessa ambiguidade? Para que deixar a dúvida no leitor?
Talvez porque a ocorrência ou não da traição não seja o objetivo do livro, e a certeza pode até atrapalhar, dependendo do que se pretende.

Justamente por não apresentar provas nem acusar diretamente, sua narrativa se aproxima mais de um desabafo íntimo do que de um julgamento. Ele insta as pessoas a entenderem o que um ciúme mal resolvido pode causar, visto que a sociedade cobra delas comportamentos que evitem até mesmo as aparências da dúvida.

Durante a leitura, destacamos a dúvida do ato em detrimento do efeito, embora este seja mais relevante para a interpretação, pois o casamento se destrói por uma obsessão, por uma sombra, e não necessariamente por uma realidade.

Vemos que Machado fez uma inversão de personalidades: uma mulher forte e atraente e um marido fraco e solitário.
Se Bentinho fosse de caráter forte, essa história não seria contada, não pela história em si, mas um homem seguro não seria destruído pelas circunstâncias. Poderia ter se casado novamente, seguindo com a vida, enquanto a mulher, ao ser abandonada, enfrentaria maiores dificuldades para recomeçar.

O fato dele ser vulnerável e sentir a situação na própria vida, fez com que percebesse e sentisse as consequências que normalmente recairiam sobre as mulheres.
Se o mesmo fosse escrito por uma mulher, a reação do leitor teria sido diferente, principalmente na época em que foi escrito.

Mesmo que inconscientemente, Bentinho exibe a própria fraqueza para o mundo. Isso exige coragem, ou possível resignação melancólica. Ele se mostra doente, ciumento, derrotado. Não tenta parecer justo, não tenta “vencer”, permitindo ao leitor observar as consequências emocionais e psicológicas de um amor corroído.

Portanto, a obra de Machado, apesar das interpretações usuais terem sido focadas em uma suposta traição por Capitu, apresenta uma essência psicológica relevante que usa essa desconfiança para outro fim: um alerta a pessoas vulneráveis sobre os riscos de comportamentos ambíguos num contexto social marcado pela rigidez moral e suas consequências.

Essa leitura se apoia em três pilares fundamentais:

O termo genérico "leitor" praticamente não foi usado. No seu lugar vemos "leitora", "leitor amigo", "avisa-me, leitor", expressões indicando um público definido para a sua história.
Essa troca não é casual, dirige-se ternamente às pessoas reforçando o apelo emocional do narrador e sugere que ele procura ser compreendido, não ser julgador nem julgado, mostrando os problemas advindos de uma situação conjugal conturbada.

A inversão de personalidade dos personagens é essencial para o objetivo proposto do livro, pois possibilitou-lhe entender a situação de uma pessoa vulnerável num relacionamento.

incerteza da traição é necessária para a análise da obra. Sem ela, o foco e o objetivo se desfariam: a traição concretizada daria razão a Bentinho, enquanto a comprovação do erro revelaria a sua paranóia, sendo as duas hipóteses pertinentes ao alerta principal.



 

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